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Microbiota intestinal deficiente afeta negativamente prognóstico de Covid-19, diz novo estudo

Revisão sugeriu que a disfunção intestinal pode exacerbar a gravidade da infecção por Covid-19, permitindo que o vírus acesse a superfície do trato digestivo e órgãos internos

CONTRIBUIÇÃO DRA. MARCELLA GARCEZ | DR. MARCELO SADY Publicado terça 20 abril, 2021

Revisão sugeriu que a disfunção intestinal pode exacerbar a gravidade da infecção por Covid-19, permitindo que o vírus acesse a superfície do trato digestivo e órgãos internos
Microbiota intestinal deficiente prejudica prognóstico de COVID-19 - Freepik

As pessoas infectadas pelo vírus Sars-Cov-2 e que apresentam sintomas de Covid-19 podem ter uma ampla variedade de severidades, sendo que os mais comumente relatados incluem febre alta e problemas respiratórios. 

No entanto, a autópsia e outros estudos também revelaram que a infecção pode afetar o fígado, rins, coração, baço - e até mesmo o trato gastrointestinal. 

Uma fração considerável de pacientes hospitalizados com problemas respiratórios também apresenta diarreia, náuseas e vômitos, sugerindo que, quando o vírus se envolve no trato gastrointestinal, aumenta a gravidade da doença. 

E, foi exatamente esse o objeto de uma nova revisão publicada no mBio, um jornal de acesso aberto da American Society for Microbiology.O autor examinou evidências emergentes sugerindo que a saúde intestinal deficiente afeta negativamente o prognóstico do Covid-19. A disfunção intestinal - e seu intestino permeável associado - pode exacerbar a gravidade da infecção, permitindo que o vírus acesse a superfície do trato digestivo e órgãos internos. Esses órgãos são vulneráveis à infecção porque têm ACE2 - enzima conversora da angiotensina 2, uma proteína alvo do SARS-CoV-2 - disseminada na superfície”, afirmou a médica Marcella Garcez.

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“ACE2 fica na membrana de algumas células, como as do pulmão, mucosa nasal e parede do intestino. Sabemos que o Sars-Cov-2 tem uma espícula, que consegue se ligar à ACE2 e isso vai facilitar a fixação do vírus nas células do pulmão. A partir do momento em que ele introduz o material genético dele, que é o RNA, ele vai usar todo o maquinário da própria célula para se replicar. Diante da presença do vírus na célula, existe uma resposta inflamatória, que pode ser exagerada. Isso leva a uma tempestade de citocinas, que acaba destruindo as células do hospedeiro e acaba sendo sistêmica: afeta pulmão, intestino e outros órgãos”, disse o geneticista Marcelo Sady.

De acordo com o estudo, parece haver uma conexão clara entre a microbiota intestinal alterada e o Covid-19 grave. Estudos anteriores demonstraram que pessoas com condições médicas subjacentes, incluindo hipertensão, diabetes e obesidade, enfrentam um risco maior de Covid-19 grave.

“O risco também aumenta com a idade, sendo os idosos mais vulneráveis às complicações mais graves e à probabilidade de hospitalização. Mas ambos os fatores - idade avançada e condições crônicas - têm uma associação bem conhecida com uma microbiota intestinal em desequilíbrio, que pode afetar a integridade da barreira intestinal e permitir que patógenos tenham acesso mais fácil às células do revestimento intestinal”, afirmou a médica.

Mas, até agora, a ligação entre a saúde intestinal e o prognóstico do Covid-19 não foi demonstrada empiricamente. Alguns pesquisadores argumentaram que microbiomas intestinais prejudiciais podem ser uma razão subjacente para o fato de algumas pessoas terem infecções tão graves. 

“Os estudos realizados indicam uma relação complicada. Um estudo com pacientes sintomáticos de Covid-19 em Cingapura, por exemplo, sugere que, mesmo que o SARS-CoV-2 atinja o trato gastrointestinal, pode não causar problemas. Ao mesmo tempo, a saúde intestinal de uma pessoa no momento da infecção pode ser crítica para o desenvolvimento dos sintomas”, disse a Dra. Marcella.

Muitos estudos recentes encontraram diversidade bacteriana reduzida em amostras de intestino coletadas de pacientes com Covid-19, em comparação com amostras de pessoas saudáveis. 

“A doença também tem sido associada ao esgotamento de espécies bacterianas benéficas - e ao enriquecimento de espécies patogênicas. Um desequilíbrio semelhante foi associado à infecção por influenza A, embora os dois vírus difiram na forma como alteram a composição microbiana geral”, disse o estudo.

A pesquisa é um alerta, principalmente, para os hábitos alimentares do momento, uma vez que a “dieta ocidental” é pobre em fibras e uma dieta deficiente em fibras é uma das principais causas de microbiomas intestinais alterados. 

“Essa disbiose da microbiota intestinal pode levar a doenças crônicas. Incluir fibras na alimentação é fundamental para melhorar a função intestinal e por tabela a imunidade, já que o intestino está diretamente ligado ao sistema imunológico. Um estudo recente da Universidade da Finlândia Oriental, por exemplo, descobriu que o farelo de aveia e de centeio reduzem o ganho de peso e a inflamação do fígado, por apoiar a microbiota intestinal benéfica e reduzir o metabolismo do colesterol”, afirmou a médica. 

A pesquisa ainda disse que, se trabalhos futuros mostrarem que a saúde intestinal afeta o prognóstico de Covid-19, os médicos e pesquisadores deveriam explorar essa conexão para desenhar melhores estratégias destinadas a prevenir e controlar a doença. 

“Comer mais fibras prebióticas e alimentos enriquecidos com probióticos, pode diminuir o risco de uma pessoa desenvolver doenças graves. A prescrição de probióticos suplementares em altas concentrações e o transplante de microbiota podem ser uma estratégia terapêutica complementar que vale a pena considerar para pacientes com quadros mais graves de Covid-19. E lembrando que a saúde intestinal vai além da pandemia. Assim que controlarmos a doença, o mundo vai continuar o enfrentamento das doenças crônicas e problemas associados à saúde intestinal deficiente”, finalizou a médica nutróloga.


DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica Nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do CRMPR, Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologiado Hospital do Servidor Público de São Paulo.

DR. MARCELO SADY: Pós-doutor em genética com foco em genética toxicológica e humana pela UNESP- Botucatu, o Dr. Marcelo Sady possui mais de 20 anos de experiência na área. Speaker, diretor Geral e Consultor Científico da Multigene, empresa especializada em análise genética e exames de genotipagem, o especialista é professor, orientador e palestrante. Autor de diversos artigos e trabalhos científicos publicados em periódicos especializados, o Dr. Marcelo Sady fez parte do Grupo de Pesquisa Toxigenômica e Nutrigenômica da FMB – Botucatu, além de coordenar e ministrar 19 cursos da Multigene nas áreas de genética toxicológica, genômica, biologia molecular, farmacogenômica e nutrigenômica.

 

Último acesso: 03 Dec 2021 - 18:33:14 (1483).