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“Um alimento da alma, do corpo…” relata Fabiana, a FabGirl, sobre o Breaking, o mais novo esporte olímpico do pedaço

Saindo de uma ONG que atendia jovens em vulnerabilidade social em Brasília para dominar os palcos, agora ela usa a arte da modalidade para inspirar vidas

Marcello Sapio, com a supervisão de Marina Pastorelli Publicado sexta 18 dezembro, 2020

Saindo de uma ONG que atendia jovens em vulnerabilidade social em Brasília para dominar os palcos, agora ela usa a arte da modalidade para inspirar vidas
FabGirl é um dos maiores nomes do Breaking no Brasil - Instagram

O dia 7 de dezembro de 2020 foi, com toda certeza, um dos mais importantes para o Breaking Dance - para muitos, o maior.

Isso porque o COI, o Comitê Olímpico Internacional, anunciou a inclusão da modalidade no cronograma para os Jogos de Paris, que acontecerão em julho de 2024.

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A inclusão não foi, necessariamente, uma surpresa, já que se especulava muito essa entrada como uma ação para cativar o público mais jovem.

Olimpíadas à parte, muitos olham para o Breaking como uma manifestação artística e cultural, muito ligada aos movimentos urbanos, que surgiram, principalmente, na década de 80, nos Estados Unidos.

DE BRASÍLIA PARA O MUNDO

Assim que o Breaking foi anunciado, a procura pela modalidade no Google Brasil dobrou, mostrando um grande interesse do grande público.
Fabiana, conhecida dentro da modalidade como FabGirl, é uma das grandes atletas do país. Mas quem a vê brilhando nos palcos do mundo, nem imagina o começo dela.

“Conheci o Breaking em 2001 por meio de oficinas de danças urbanas de uma ONG chamada Ação Esperança, é uma instituição que oferece diversas atividades gratuitas para jovens em situação de vulnerabilidade social do Vale do Amanhecer, um bairro de Brasília”, disse a Fabi, além de contar que passara rapidamente por outros estilos de dança.

Porém, a paixão pelo estilo foi quase que instantânea, assim como a percepção de seu talento, fazendo com que em pouco tempo, já virasse um dos principais nomes da modalidade no país.

Fabi conseguiu feitos impressionantes, como por exemplo disputar o mundial de Breaking por dois anos de forma consecutiva, feito até então inédito.

FabGirl
Fabiana (dir.) recebendo um troféu (Instagram)

 

ESPORTE OU ESTILO DE VIDA?

Apesar de, como já citamos, a inclusão do Breaking no cronograma Olímpico não ter sido uma surpresa, gerou certa discussão sobre considerar o movimento um esporte ou não.

Políticas à parte, Fabi vê como um marco positivo, pela visibilidade que trará -e está trazendo. Além, obviamente, pela procura das pessoas em se aventurarem na modalidade.

A atleta cita apenas um fator como o principal para aprender o Breaking: “Vontade. O resto vem no decorrer do processo de aprendizagem. Pois qualquer pessoa pode praticar Breaking e cada pessoa é um universo em si. É no meio do caminho que as qualidades vão se desenvolvendo e se aprimorando. Você não precisa de um pré-requisito inicial para praticar”.

Além disso, ela ainda conta da atmosfera natural do esporte, que é acolhedora a novos(as) adeptos(as): “O Breaking em si é uma escola em que, depois que você entra, não quer sair. A aprendizagem é contínua, é para a vida toda, em cada estágio; um ensinamento. Você sai, quando sai, completamente transformada”.

E essa transformação passa pelo autoconhecimento. Fabi enfatizou esse conhecimento próprio como um dos principais benefícios da prática do Breaking: “Quando nos conectamos mais com nossa corporeidade esse processo pode gerar uma confiança maior para encarar as adversidades da vida, é o nosso território, o porto seguro. Com isso, começamos a descobrir quem somos mais profundamente, nossos limites, nossas forças e isso é empoderador. Sem falar nos inúmeros benefícios para a saúde como redução de estresse, equilíbrio, coordenação motora, flexibilidade, força, melhora no sono, etc”.

Mas e para ela? Como qualquer pessoa apaixonada, Fabi fala em tom inspirado: “[O Breaking] Representa o grande amor da minha vida não personificado (risos). Poderia até enquadrar como estilo de vida, filosofia e/ou religião. Na verdade, eu vou ficar romantizando aqui algo que eu não sei expressar em palavras o que representa exatamente porque é algo muito profundo e particular.

“Eu vivo isso há quase 20 anos e não sei o que seria da minha vida sem. Um alimento da alma, do corpo ou o meu oxigênio? Não sei. Só não vivo sem”, completou.
    

BREAK DANCE? NÃO! BREAKING!

Um ponto que é de extrema importância ressaltar é sobre a terminologia correta do esporte e da dança, que, infelizmente, acabou sendo disseminado de uma forma errada.

O nome oficial do esporte e da prática é BREAKING, que foi dado pelos estadunidenses no começo das danças de rua.

Aí você deve estar se perguntando agora: “Então como foi parar no break dance?”. Vamos explicar agora.

Esse nome foi inventado pela mídia norte-americana quando o estilo começou a ganhar espaço e ocupar eventos, programas televisivos, feiras culturais, e acabou se disseminando mundo afora, de forma errada.

Ou seja, quando nos referimos à modalidade esportiva e cultural, se diz Breaking! 

FOTO MEIO BREAKING
Grupo de mulheres do Breaking, do qual Fabi faz parte (Instagram)

A MULHER NO BREAKING

FabGirl, além de quebrar vários paradigmas dentro do esporte, ele faz com que a modalidade se desenvolva, principalmente em uma área em que ainda é dominada por homens.

Ela é empresária, dona de uma escola de dança Breaking em Brasília, que, segundo ela diz, de forma esperançosa, será “uma escola que vai preparar muitos talentos para as Olimpíadas”.

A B-girl relata que tem uma importância muito grande, não só o desenvolvimento do esporte, mas como as chances para todos e todas: “É o mesmo que pensar a importância da mulher na sociedade e para o mundo. Sabemos muito bem que para muita coisa acontecer na cultura Hip Hop/Breaking inúmeras mulheres empreenderam e produziram os irmãos, amigos e companheiros. No fim, só eles receberam reconhecimento e elas foram esquecidas no tempo. Hoje o movimento está bem diferente, não estamos mais nos bastidores apenas, estamos buscando a linha de frente e fazendo história”.

O seu grupo, o BSBGIRLS, dá a oportunidades a mulheres, jovens, crianças e adultas de Brasília, há 17 anos. O movimento cresceu tanto que conseguiram, recentemente, fundar a primeira escola híbrida específica para o Breaking: A Drop Education.

FABI EM PARIS?

Como não podia faltar, o assunto das Olimpíadas entrou na pauta. O Brasil, mesmo ainda tendo muito a evoluir como federação dentro da modalidade, consegue pensar em ver a sua bandeira sendo representada nos Jogos.

O maior evento esportivo da Terra já pairou sobre os pensamentos de Fabi, que carrega a responsabilidade de ser uma das melhores da categoria.

Quando perguntada se ela sonhava em vestir a camisa do Time Brasil em 2024, ela responde de uma forma confiante e que nos dá esperança de dias dourados à frente: “Não só me imagino, como sei que estarei lá de alguma forma”.

Fabi, que tem 38 anos, ainda não sabe se estará lá nos palcos ou fora deles. Integrante da comissão de Breaking no Brasil, ela prepara a transição para a nova função de sua carreira, mas mesmo assim, o carimbo da França em seu passaporte está com um lugar reservado, seja ela atleta ou coordenadora.
 

Último acesso: 19 Jan 2021 - 08:58:38 (1137).